• Estrada Fora

A picar na Praça

O País desconfinou e o bairro, desejoso de reclamar de volta alguma da sua vida, desceu à praça.



E que praça! Algo que há muito não se via e, vá-se lá entender numa cidade solarenga como Lisboa, era raro de ver... os restaurantes – finalmente abertos ao cabo de dois meses – de salas vazias e “tenda armada” na calçada (só nos Santos, e isso não conta).


O final de tarde trouxe as gentes à rua. Mesas apartadas, respeitando as novas normas, mas recheadas, sentia-se uma vida, uma alegria cuidada, cautelosa no ar.



Juntas aos arbustos, aqui e ali, umas bicicletas, no meio da praça os putos, sempre os putos, com os seus risos e vozes sempre alegres, chutavam a bola, corriam e saltavam dando a todo o entorno ainda mais vida.


Num dos extremos, uma só cozinha, dois nomes, qualquer um deles a dizer tudo sobre aquilo que nos espera num aguardado, antecipado regresso. Se de numa porta se Pica na Praça, na outra somos logo instados, ainda antes de entrar com Vai Comer o Quê?


E hoje, ao contrário de outros dias, em que as cores desgarradas das cadeiras e a decoração feita de bocados daqui e dali nos desfiam ao interior e à jovialidade de tal desarranjo arranjado, o calor do fim de tarde e a vontade de começar a voltar ao que era, só nos leva à mesa na rua para ver, para sentir, para ouvir a vida que ali se sente e para ela contribuir.



Foi a segunda noite dos espaços do António desde o início do desconfinamento e a escolha, confirma-se, não podia ter sido mais acertada.

Na melhor companhia que há, que é a nossa prole, Estrada Fora com a criança cada um na sua “burra”, lá chegámos e, com as devidas distâncias, lá esperámos para nos indicarem a nossa reserva.


Depois, sentados, pedido feito, lá esperámos, como todos esperaram. É que, como todos os regressos, fazem-se lentos, fora de ritmo... há que dar tempo para se entrar nele, mas isso não interessa. Quem, como todos, esperou meses por um jantar fora, não se importa com tempo que passa à mesa, de copo à frente, à conversa e certo do que está para vir.


E a verdade é que no Pica na Praça, Vai Comer o Quê? é sempre um problema de escolha, mas é sempre bom, sempre foi. Por que carga de água assim não haveria de continuar a ser? E foi!


E foi só picar... na praça. Choco frito, não como o de Setúbal, é certo (mas esse também não é frito, é frrrito!), antes o habitual desta cidade a ponto-luz bordada. Um Pica-pau, diferente daquele a que nos acostumámos, e uns Peixinhos da horta. A dose certa para o culminar de um dia onde a alegria passou também por uma tarde por entre os trilhos e sombras de Monsanto.


Um agradável regresso, muito #AiPrasCurvas e para repetir muitas vezes. Sim, porque além de termos a obrigação de usarmos de cuidados e cautelas para não darmos ao vírus outra vez rédea solta, temos também um importante papel a desempenhar para darmos ao nosso bairro, aos nossos bairros, de volta alguma da sua vida e contribuir para quem lhe faz correr o sangue nas veias. Isto se queremos que ele, que eles, recuperem e voltem a ser pulsantes, pujantes de vida para os seus e para os outros também porque, no fim de contas, o meu bairro é vosso e vossos são também meus!

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