• Estrada Fora

A Revolta na Bounty, ou uma aventura em duas margens a oito rodas

Fartas de estarem em casa, confinadas, arredadas de escola e amigos, as crianças, cada uma na sua margem, sem comunicarem entre si, revoltaram-se tal como os amotinados na Bounty.



Vai daí, pegaram nas burras, saíram de casa (sim, que isto agora já está para celebração de algumas datas) e fizeram-se ao caminho, Estrada Fora e Fora de Estrada, as duas, #AiPrasCurvas.


A Norte, a rebelião levou a uma escalada que, como todas, começam cá por baixo. Aos poucos, por entre trilhos, subidas e descidas vertiginosas, a visão do asfalto trouxe alento. Mas, sem destino nenhum, acabou por se deixar levar no engodo.



Heroica, com coragem lá abraçou o desafio e fez-se à escalada, umas vezes a pedal, outras a pé, não desistiu. Lamuriou-se um pouco nas subidas, regozijou-se nas descidas, mas por fim chego ao topo, ao ponto mais alto da cidade.



Tirando a vista a perder no horizonte, com Lisboa, o Tejo e, um pouco mais ao fundo, Alcochete, o apogeu de Monsanto não tem nada mais que não a cadeia e... Uma descida... Uma descida louca, infindável, arrebatadora, vertiginosa. Uma descida que se faz sempre de vento na cara.


E é ver a criança, à frente, concentrada, compenetrada, inebriada pela loucura da velocidade e imaginar-lhe na cara um sorriso rasgado de orelha a orelha, não só pelo feito da conquista do pico de Monsanto, mas pela alegria que é descer a bom descer, veloz como só as coisas velozes são e, melhor ainda, sem esforço. Atrás, impotente, a tempos um ditatorial “Trava!”, ou um incentivador “Boa, isso mesmo!”



Foram pouco mais de quatro minutos da mais radical aventura para a criança, mais acostumada a rotas mais planas, mais suaves, menos exigentes, menos emocionantes. No fim, a certeza de que é para repetir.


Enquanto isso... a Sul, na margem da qual se admiram as costas do redentor, a criança decidiu enfrentar novos trilhos, desafiar-se a si mesma, mostrar a revolta na sua bicla "rosinha". Sair e brincar na rua era a sua palavra de ordem!



Depressa abandonou o alcatrão, entrou nos trilhos sombreados pelos pinheiros mansos. Aqui e ali alguma lama, resistente dos dias de chuva pré-revolta. Este é o confinamento que a criança queria. Largar os travões, deixar as rodas saltitar, sentir os galhos e pedrinhas estalar à sua passagem. Há brilho no olhar. Há desafio! Há revolta. Há medo, a espaços, mas há... um medo que se mistura na adrenalina de saber que quer e vai conseguir. Sabe que está longe de casa, mas perto. Sabe que depois de uma pedalada, haverá mais uma, e outra, mais cem, mais mil e que a "rosinha", fiel companheira de revolta não se amotinará às suas mãos e vontade, e a levará onde todas as "rodinhas levam" ao infinito, ao fim do trilho, à aventura. 



Entre curvas, entre pinheiros, ao longe o mar... e a vontade de chegar ao final.... e chegou. Do alto do penhasco, no final do trilho, diante dos seus olhos, um azul imenso... salgado oceano, chegam as saudades de surfar e de brincar à beira-mar. Em jeito de prece lá diz que só quer que "isto do Covid" acabe. Uma mão afaga os seus cabelos, passará! A seu tempo passará!... mas agora é preciso continuar. As aventuras nunca terminam assim. Nunca com a chegada da saudade! 



Com um golpe rápido puxa o pedal e questiona "então, vamos?!"... e arranca... cada curva uma nova luz, cada recta uma nova pedalada, e numa pausa para beber água ouve dizer "sabes criança, a vida é assim, descobrir, procurar, encontrar, entender, começar de novo!" Sei que não entendeu, mas sorriu e pedalou na revolta para regressar a casa e dizer... "hoje fui à rua! Se não chover, amanhã, vou outra vez!"


Um texto a quatro mãos.


#Covid19 #Coronavirus

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