• Fora de Estrada

A vida devia ser assim... Polegar no ar!

Atualizado: 10 de Fev de 2020

Domingo de manhã, entre torradas e polpa de fruta a senhora cá de casa diz "- morreu o Paulo Gonçalves"... ... revirei a cabeça, os olhos, revirei-me por dentro e disse "- quê?"....

Incrédulo corri todos os sites oficiais, semi-oficiais, amadores e tudo o que se possa imaginar. Era verdade...

Sobre mim e sem explicação aparente abateu-se uma nuvem negra de tristeza e umas lágrimas. Não o conheci pessoalmente. Não era uma amigo. Não me era nada! Ou seria? Sim, era! Era o homem que me fez ficar acordado noites a fio, sem hora para ir deitar, à espera dos escassos minutos de antena a horas tardias do Dakar.

Tenho um amigo que era seu amigo! Teclei umas letras apressadas para o avisar! Ele já sabia. Foi acordado pelas mesmas palavras escritas por outros amigos.

Nesse momento o Dakar perdeu todo o interesse... e só sei quem foram os vencedores da edição deste ano por ter visto passar as "gordas" dos jornais. Os dias seguintes foram inundados de tributos, homenagens. Relembro a revolta que senti pelas aberturas de telejornal com 30 minutos de antena dedicados ao Speedy (agora morto teve mais antena do que ao longo de anos de competição). Foi preciso morrer para ser considerado um herói, um super-atleta, um exemplo de dedicação, entrega e valores. Claro que não tardará a ter a sua estátua, as homenagens póstumas, as medalhas e condecorações. Porque razão só reconhecemos os nossos grandes homens depois de já cá não estarem. Pouco interessa agora! o #8 não voltará a rolar de roda e polegar no ar.


Entre tanta informação acabei por encontrar uma homenagem passeio ao Cabo da Roca organizada por um grupo local de amantes das Harley. Alinhei na partida no Museu dos Coches. Havia respeito, tristeza e muito orgulho. Havia bandeiras de Portugal. Havia motas de todos os estilos e cilindradas. Estavam representadas todas as variantes das classes sociais. Havia união. Pouco importa se era uma 125cc ou uma 1200cc. Pouco importava se era um moto-clube ou o anónimo cidadão. Havia união.

Rolando marginal fora, debaixo de céu azul com um sol luminoso que nunca deixou passar despercebidos os 7 graus... lá se foi rolando em coluna, ordeiros, até ao Cabo da Roca. Na chegada e antes do minuto de silêncio e capacete no ar, ao olhar a multidão, por entre a qual não havia espaço nem para mais um, dei-me conta que todos aqueles seres humanos, por mais distintos que fossem, estavam unidos por uma causa comum...

Nessa mesma noite consegui ver o tributo do Eurosport ao nosso Speddy... As últimas imagens dele a rolar no deserto. Sente-se o tremor na voz do locutor... E fica como última imagem um Speedy, a rolar numa pista rápida a olhar para cima para o heli... polegar no ar...

O que me sobra do Dakar? Esta imagem... e a voz do locutor, "A vida devia ser assim! Polegar no ar!"


Até sempre campeão, onde estiveres, que seja entre dunas, de road-book e punho bem aberto! Seja onde for que seja "aí prá's curvas!"

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