• Estrada Fora

Chamada

Há dias em que acordas, lento, e sentes ao longe que algo te chama. Abres um olho, atentas o ouvido e descartas. Julgas-te num sonho e viras-te na cama. Mas a chamada persiste, insiste. E viras-te outra vez, chegas mesmo a esconder a face no aconchego da almofada, na vã esperança os apelos se desvaneçam e cessem.


Mas não! Há algo que te inquieta, que mexe contigo desde o mais fundo do teu ser, que te hipnotiza e te leva ao abandono da cama, desperto como nunca, com uma energia rara, com um alento imenso capaz de mover montanhas, o mundo.



É nessa altura que sabes, que sentes que é a estrada, o caminho, que te chama. O destino. Não para ir e ficar, apenas para rumar, estar, passar e voltar. E então sais com o que tens no corpo, mais uns trocos no bolso, água e café para te alimentar o ânimo e te acompanhar na rota.


Pela frente, mais de 1.000 km para fazer na companhia de ti próprio e com os teus acordes preferidos para banda sonora. Tudo porque o que te move é ir, apenas ir, nada mais. Não para pedir, tão pouco para agradecer, porque também nada rogaste. E vais, na certeza inabalável que estarás de volta a casa a tempo de jantar. E sentes que, no primeiro metro dos mais de um milhão que tens pela frente, o objectivo está cumprido, a chamada terminou, já não se ouve, mas segues!


Rasgas o País de Sul a Norte, bebes com os olhos cada mudança, cada metamorfose que a paisagem te oferece, tal como testemunhas cada capricho do tempo. E assim, quando dás por ti, Estrada Fora, cruzas a fronteira e segues, cada vez mais perto da origem da chamada, sempre mais perto.



E então chegas! Deixas o carro entregue a si próprio e fazes-te à rua a pé, que também a caminhada faz parte do percurso. E eis que te deparas com o que te moveu da cama cinco horas antes, e passeias em seu redor, pisas o marco da chegada, olhas em contemplação e entras. Sentas-te e, por entre o burburinho, sentes-te num silêncio só teu. Conversas contigo, com quem te moveu e dizes-te, dizes-lhe:


Já está, já passou! Não foi nada, apenas um percalço na estrada, porque se outra coisa fosse nada disto teria sido. Porque temos em nós toda a força do mundo para superar todas as adversidades. Só não a sabemos usar, só não a sabemos encontrar sempre porque amiúdes vezes nos consideramos fracos e impotentes... sem o sermos!”



E em minutos sais, voltas costas e abraças de frente o regresso a casa para jantar. À mesa, já ao pé de casa, só como na viagem, sentes a companhia de todas as emoções que te levaram a um café em Santiago de Compostela, a alegria da recordação que fizeste e lá deixaste, repleta de nós, dos nós de que se fazem as amizades que nos acompanham vida fora. E sentes-te completo, #AiPrasCurvas com a forma como vives e sentes a tua espiritualidade, a tua crença de que em cada um de nós reside a força para superar tudo o que nos surge pela frente.


Porque o mais importante é sempre ir, não tanto o como, ou o porquê, mas ir, porque a estrada chama, tanto como a vida que mais não é que um caminho que se faz a cada dia.

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