• Estrada Fora

Despenalizar não é legalizar, tão pouco impor

Ora vamos lá entrar aqui por curvas perigosas, daquelas ditas fracturantes.



Aqui por estas terras de brandos costumes há uma certa – e recorrente –, dificuldade em compreender o significado de certas e determinadas palavras. Uma dificuldade, ou talvez mesmo uma falta de vontade de compreender – e aceitar –, que permitir, ou despenalizar, não é obrigar quem quer que seja ao que quer que seja.


Mais que isso, há uma enorme dificuldade em compreender e aceitar o que verdadeiramente significa liberdade e que esta termina onde a dos outros começa. Há uma enorme dificuldade em aceitar que a liberdade é isso mesmo: ter a nossa e PERMITIR que os outros tenham a sua, sem que isso viole fisicamente a nossa.


Em vários casos preferimos defender uma pseudo liberdade que vai apenas até onde a nossa vai e considera tudo o que vai além dela como um não direito. Tudo porque, na nossa pacata sociedade de brandos costumes e grande defensora das liberdades, estas só são possíveis se não forem muito... “desviantes”.


Por cá, neste estado que se considera laico, mas que é tão – ou mais – secular que outros, o que importa não é a liberdade, mas sim o conceito dela e a imagem que se pavoneia para fora.


Aquilo de que por estes dias se fala é, tão só, de despenalizar. Nem sequer é de legalizar. E que o fosse, uma, como a outra, não nos obriga a nada, não nos impõe nada, não nos impede de continuar a optar por não dizer não à eutanásia.


Trata-se tão somente de retirar a pena legal. Ou seja, e há falta de melhor exemplo, nada mais é que criar uma situação de limbo em que, não sendo legal, deixa de haver penalização para a ilegalidade. Seria melhor legalizar? Sim! É claro que sim. Não há dúvidas que é sempre melhor legalizar que deixar as coisas numa situação de “nim”. Mas é um passo.


Estas incapacidades de permitir que as pessoas decidam o que querem fazer com o seu corpo, estas vontades de referendar porque se espera que o resultado nos seja favorável (mas se não for, ai Jesus), estas atitudes paternalistas... Paternalistas como noutros tempos, são claramente atitudes de outros tempos, dos tempos da “Velha Senhora”; são atitudes típicas de quem tem uma visão enviesada da liberdade; são atitudes de quem, em boa verdade, é avesso à liberdade.


São atitudes de quem tem medo dos que olham o mundo de outra forma por pensarem que esses, como eles, lhes vão querer impor as suas verdades. Errado!


Só gostava de saber quem é que, estando claramente perante uma situação de vida a prazo, com uma qualidade de vida nula e sofrimento incomensurável, estaria aí prá’s curvas para continuar por cá em vez de, de forma tranquila, segura e assistida, desligar o interruptor. Eu sei que não gostaria!


Mas, infelizmente, sei que muitos dos que hoje defendem a manutenção da penalização da eutanásia serão os primeiros a fugir para um desses países onde existem esses interruptores...


Mas eu não. Estarei por cá, aí prá’s curvas, a defender esse direito fundamental (e irritante) de poder escolher livremente, sem prejudicar os outros, o que quero e acho que é o melhor para MIM, sem, em momento algum, o impôr aos outros!

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