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Estranhos dias estes... ou quão insatisfeitos nós somos

É em alturas como estas, mais conturbadas, em que tudo é e está diferente à nossa volta, que vemos bem o quão estranhos e insatisfeitos todos nós somos.



Socialmente isolados e confinados há semanas, afastados de quase tudo e todos por causa do #CoVid19, damos por nós desejosos por algo que sempre tivemos à mão de semear, mas que há muito, e durante muito tempo, desdenhámos.


Somos assim, só estamos bem onde não estamos, só queremos quem nunca vimos, quem nunca conhecemos. Uma verdade antiga, tão bem escrita, descrita e prevista por António Variações em 1983. Insatisfeitos natos!


Até agora, ou melhor... até há umas semanas, era ver-nos a todos num qualquer restaurante, num qualquer parque... numa qualquer sala de jantar, em casa, todos juntos, mas afastados. Amiúdes vezes colados aos ecrãs dos nossos telemóveis e tablets, presos às redes sociais, inebriados pela foto do prato, quase sempre a dar mais atenção aos ausentes e esquecendo os presentes, trocando conversas por escrito e com emojis num egoísmo inexplicável.


Hoje, sem podermos estar com amigos e muitos familiares, damos por nós incompletos, ávidos de mais companhia a uma qualquer mesa, ávidos do som de outras vozes, de gargalhadas, de palhaçadas presentes, próximas! Ou de um choro que seja, que por vezes também é preciso.


Damos por nós a pegar nos telefones e, pouco depois, a atirá-los para o lado, insatisfeitos, incompletos, fartos de mais do mesmo e tristes por todas as vezes que, com amigos à distância de um braço, optámos antes por nos fecharmos nos nossos gadgets para estarmos com quem não está connosco, num ciclo vicioso em que acabamos sempre por estar com quem não estamos.


Mas falta mais. Falta a utilidade. Presos em casa, a trabalhar – como se pode –, entre a lida da casa e o apoio à prole, falta-nos a utilidade. Falta-nos apanhar a chaves que caiu ao vizinho, ajudar a recolher as compras que rebentaram o saco do desconhecido no meio da rua e se espalharam por todo o lado, falta-nos o esticar o braço a amparar a queda de quem não viu a pedra marota, levantada, no meio da calçada.


Se depois de tudo isto, além de termos ganhado o vício de lavar muito mais as mãos, de respeitarmos os outros com o cuidado simples de taparmos a boca quando espirramos ou tossimos, se depois de tudo isto ganharmos o vício de esquecermos os gadgets quando estamos com outros ao lado, se aprendermos a desligar, teremos então ganhado todo um mundo Ai Prá’s Curvas, muito mais alegre, muito mais vivo, muito mais cheio.

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