• Estrada Fora

"Isabel, para mim é Cabidela, claro!"

A primeira vez que cruzei a porta do Batata Doce foi com um grupo de amigos, gente da casa, que há muito conhecia o trato que ali se dava aos comensais, que há muito conhecia os sabores divinais que saem da cozinha, sempre pela mão da Isabel Jacinto.



Isabel, uma cabo-verdiana de sorriso fácil por entre duas bochechas redondas (que em pequena lhe valeram a alcunha de Batata Doce), não sabe ser outra coisa que não simpática e afável com todos. Corre-lhe nas veias. Não se conhece de outra forma. As agruras da vida, ao contrário de muitos, despertaram nela uma alegria de vida, um “podia sempre ser pior” de que todos nós devíamos ter inveja.



E tudo isto que é a Isabel sai-lhe depois pelas mãos para o tacho. “Cozinhar para mim é uma coisa que vem da alma,” diz Isabel, uma arte. E que arte!


A primeira vez que cruzei a porta do Batata Doce, na rua de São João da Mata, foi também a primeira vez que a Isabel se aventurou a fazer Arroz de Cabidela. Alguns de nós, no grupo de cerca de 20 que faz o Batata Doce rebentar pelas costuras, gostamos bastante do prato – sou um deles.



E que estreia! Não me lembro de alguma vez ter comido um Arroz de Cabidela assim. Fenomenal, cheio de arte, cheio de alma. Tanto que até mesmo quem dizia não gostar da iguaria, não resiste a comer um bocado a cada ida da trupe ao Batata Doce.


Mas não é tudo. A Isabel também tem o péssimo hábito – diria mesmo irritante e inconcebível hábito – de fazer uma Muqueca de Camarão de se lhe tirar o chapéu, tal como o Bobó de Camarão e, dizem os apreciadores, uma Muamba daquelas que nos faz vir do fim do mundo de propósito para a comer.


Mas as perdições não se ficam por aqui. Antes destas, de comer e chorar por mais, temos as entradas e também as sobremesas.


Para completar o ramalhete, o João, o marido da Isabel, que nos trata sempre como reis à mesa. Não há detalhe que fique esquecido. Somos tratados como gente da casa... Não, da casa não... da família, mesmo aqueles que lhes entram porta adentro pela primeira vez.



E, a verdade, é que não há quem não se apaixone pela comida e pelo espaço, pequeno, mas acolhedor. Um espaço onde se entra pela primeira vez como cliente e se sai como amigo, sem nos esquecermos dos nomes de quem nos recebeu e certos que eles se recordarão do nosso. Um espaço onde o tempo não corre, anda sempre devagar e nunca há pressa para a segunda mesa... É que não há segunda mesa. E ainda bem que assim é, pois no lugar dela temos depois sempre direito à companhia da Isabel, quantas vezes na nossa mesa, já quando a noite vai longa, a jantar e rir-se connosco sempre Aí Prá’s Curvas.

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