• Fora de Estrada

Reflexões de um entardecer púrpura

Domingo soalheiro e ameno… o vento preferiu outras paragens. Céu azul…


Ao longe o fim de dia antecipa um daqueles entardeceres com um pôr-do-sol púrpura.

Entre o chilrear dos pássaros e o som das brincadeiras das crianças nos quintais vizinhos escuta-se uma flauta de pan. Um amolador de facas anuncia a sua chegada. Diz o mito – se realmente o for – um mito - que quando um amolador se anuncia o mau tempo virá.



É a antecâmara desta chuva que veio lavar as ruas e encher as ruas de chapéus coloridos. Há galochas nos pés das crianças, espuma no asfalto, passos apressados na tentativa de passar entre os pingos da chuva – uma velha (lololololol), técnica índia de escapar à “molha”. Há um ranger de dentes em jeito de reclamação com as escovas do limpa-vidros que de “limpa” já só têm mesmo o nome já que a borracha ressequida pelo sol do verão já só se arrasta no para-brisas.



Há também um pensamento constante. Um receio! Um temor! Por estes dias entes queridos passam pelas agruras de um vírus a que teimosamente na comunicação social continuam a chamar “o novo Corona Vírus”. Não tarda será dezembro e passará um ano desde que foi anunciada a sua descoberta… o que é que ainda há de novo neste “bicho”? Nada… nem o seu agravar, nem novas de descoberta de vacina, nem mesmo o número de vidas que leva ou de novos casos que crescem a um ritmo Guiness World Record todos os dias.



Do hospital chegam novas de melhorias, mas nada definitivo ainda. Uma vez mais o temor. Uma vez mais o pensamento do ao jeito do Carlão – eu gostava de ser bicho para comer o bicho que te come – mas não sou, nem posso simplesmente num estalar de dedos acreditar que vai desaparecer. Bem gostava! Mas será aquilo que tiver que ser.


Por estes dias a vida vai-se levando. Não abraçar, não estar, não fazer, não partilhar, não, não, não… é (aqui sim), a nova forma de estar, a nova forma de amar, a nova forma de viver. É tudo uma questão de readaptação, dizem… sendo o homem um ser de fácil adaptação, não seria difícil reaprender a viver, mas não… o homem é um animal de hábitos e entre eles lavar as mãos, usar um paninho na cara ou simplesmente manter distâncias não são hábitos que tenha.


Por estes dias, há preces, promessas. Há sonhos e projetos adiados. Há tudo, mas não há nada!


Sem o sabermos, antes da “nova maleita” éramos felizes sem o saber. O abraço não tinha outra consequência que não que fosse o mimo e o amor. Estar era amar! E sorrir era uma forma despreocupada de se estar na vida. Agora sorrimos com os olhos, dizem. Sorrimos? Vamos sorrindo! Escondidos por paninhos azuis ou coloridos com padrão.


Sem dúvida que acabaremos por nos habituar! Por reaprender! Por descobrir uma cura ou qualquer forma de controlo que não seja um “shot” de lixívia goela abaixo (há cada idiota!).



A chuva passará, virá a bonança (mito), as galochas serão chinelos, os chapéus serão bonés, os abraços serão amar, e nós, espero, teremos aprendido qualquer coisa … quanto mais não seja que ser felizes e estar #aiprascurvas não custa assim tanto!

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