• Estrada Fora

Sepúlveda, menos um grande contador de estórias

Cruzei-me com Luís Sepúlveda e as suas estórias pela primeira vez quando ainda estudava na Universidade. Ou melhor... quando jogava cartas e bebia umas cervejas no bar da Universidade com colegas. Naquela idade rebelde que nos leva a esquecer as responsabilidades, a acabar um curso por entre os pingos da chuva, à conta dos apontamentos de outros e de muita conversa com os professores, naquela certeza parva de que os estamos a levar à certa.



O primeiro encontro com Sepúlveda foi no Patagónia Express, uma viagem fantástica, Estrada Fora, que me prendeu logo nos primeiros metros da linha. Um contar de estórias que nos leva para dentro delas e faz com que não sejamos capazes de parar a leitura. Depois dessa viagem, e da enorme vontade de um dia o percorrer verdadeiramente de uma ponta à outra e não apenas em livro, surgiram outras sempre cativantes.


Hoje, ao acordar para a notícia da sua morte, quase dois meses depois de ser diagnosticado com #Covid19 após uma visita à Póvoa do Varzim, dei por mim a tirar da estante uma das suas obras, A Lâmpada de Aladino, e abri-a logo no sítio certo... no conto “Jantar com poetas mortos”. Há muito que tinha arrumado o livro neste ponto, como quem espera pelo momento certo para voltar a pegar nele, e o momento foi hoje.



Curiosas estas coisas. Ainda na primeira página do conto, um parágrafo diz tudo: “Os amigos não morrem simplesmente: morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.”


Com os contadores de histórias não é diferente, não morrem simplesmente: morrem-nos. É assim com Sepúlveda, seguramente Aí Prá’s Curvas numa qualquer outra paragem.

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