• Estrada Fora

Vou ali à taberna e já volto... mas vou voltar mesmo

Cansados de um dia Estrada Fora e com muito Fora de Estrada à mistura, o desfecho requeria um poiso para descansar os ossos, deitar conversa fora, rir a bom rir e satisfazer um pouco a fome... A de comer, a de descontrair e desligar a ficha.



Não estava fácil encontrar o sítio, não nos queriam. Só uma taberna é que aceitou abrir-nos a porta, e ainda bem que assim foi. É que, em boa verdade, nada como uma taberna para morder alguma coisa, beber uns copos, deitar conversa fora e rir a bom rir.


Trinta quilómetros Aí Prá’s Curvas rumo a Grândola, carros estacionados, e heis-nos à porta daquela taberna única. Tão única que nem nome precisa pois é d'vila. Entrámos, cinco, com o cansaço a pesar-nos no corpo e nem fomos além da entrada.


Um mundo, uma viagem no tempo até às casas dos nossos avós, na Terra, ou naquela cidade pequena, não a casa dos avós na cidade grande.


Somos recebidos por duas poltronas de lona castanhas, ao lado delas um pequeno aparador com napperon de croché e um telefone de disco, cinzento, batido, cansado como nós, à espera de uma chamada que nunca virá, assim como o contador de impulsos ao lado nunca contará uma que o seja.



Em frente, um balcão cru, de cimento sem cor e um fenomenal tampo de madeira, portas de estábulo, de correr, em que cada lanho, cada lasca, é uma história de vida. Mais ao lado, num recanto que convida ao aconchego, um sofá de napa, já roto, coberto por uma manta e decorado com almofadas de cores que não jogam com nada, uma pequena mesa branca já a perder a cor, uma televisão a preto e branco (SIM! A preto e branco), com uns estonteantes oito canais, sintonia manual e sem comando à distância. Em cima da TV, cassetes, umas originais, outras piratas com as gravações dos sucessos da rádio de outros tempos...



Era assim a salinha da casa dos avós do Carlos Santos, um grandolense incapaz de ver história perder-se, de deixar morrer peças de outros tempos, todas elas com histórias infindáveis para contar e que um dia, há três anos, resolveu juntar amores: comida (confeccionada por ele), bebida e cultura. É assim, de chapa, que somos recebidos no Taberna d’Vila.



Mas isto só por si não basta, é pouco, muito pouco, não enche a mente e os sentidos no fim de um dia longo de trabalho. É preciso mais, muito mais e é esse mais que vem depois, já sentados, quando o repasto nos aterra na mesa, sempre com uma simpatia que cada vez mais só se encontra longe da cidade grande... Aquela simpatia que pessoas de trato simples e preocupadas apenas em agradar conseguem dar.


Chips de arroz de tomate (!!!)... Não, não vamos explicar. Vão ter de lá ir... Não se explicam chips de arroz de tomate, comem-se! Cogumelos com alheira vegetariana, ovos mexidos de galinha feliz, pica-pau, arroz malandrinho de bacalhau e com feijão, tarte de lima merengada e esconderijo de chocolate. Difícil escolher o melhor quando todos são bons.



Mas, como em tudo na vida, há sempre um reverso da medalha. E, neste caso, não é apenas um, mas dois... O preço que, para o espaço, a qualidade da comida e do serviço, é super em conta, e o facto de, a partir de agora, ter de arranjar uma desculpa para deixar a Nacional nas viagens rumo a Sul e entrar em Grândola só para este injusto castigo de ir à Taberna d’Vila comer. Agravante, prometi passar antes em Alcácer para comprar daqueles camarões do rio pequeninos e levar uma dose para comer Aí Prá's Curvas com a malta da casa, sentados numa daquelas mesas da casa dos avós.

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